Somos todos brasileiros

Centrais sindicais decidiram que amanhã haverá paralisação em todo país, com o objetivo de baixar os preços da gasolina, do gás de cozinha, para apoiar a greve dos trabalhadores caminhoneiros e por eleições democráticas. A greve tem início a partir da zero hora de hoje.

O cenário de incertezas e a falta de informações verdadeiras sobre a greve dos caminhoneiros pede cautela, ponderação e equilíbrio, principalmente daqueles que ocupam cargos de lideranças e desfrutam de credibilidade no setor que representam. Qualquer decisão errada pode ser fatal para a categoria e aumentar a insegurança no país.
Apesar de dispormos de diversos canais de comunicação e experimentarmos uma velocidade de informações nunca vista, estamos totalmente desinformados a respeito dos interesses que norteiam muitos organizadores da paralisação. Nos sentimos a deriva.
Neste momento, os bastidores desses movimentos (já notamos que são vários) permanecem inacessíveis. A imprensa, perdida, trabalha com conjecturas e repete cansativamente apenas o resultado da mobilização, sem discutir ou debater as causas.
Em nenhum momento os meios de comunicação manifestaram o desejo de debater a realidade do país.
Ninguém se dispõe a discutir a situação socioeconômica e política que originou as constantes altas dos preços do óleo diesel.
Tão pouco ninguém se dignou a discutir a precariedade de nossas rodovias, a falta de diversidade nos transportes e as reformas do governo federal que retiram direitos de trabalhadores, incluindo os caminhoneiros.
Nós, trabalhadores, perdemos muito mais com a Reforma Trabalhista e mesmo assim não conseguimos parar o país.
O cerne da questão continua inatingível.
Conforme a ótica dos nossos meios de comunicação o problema da paralisação dos caminhoneiros é apenas o desabastecimento. Se isso for regularizado, acabou o problema.
O preço dessa paralisação que virá com aumento de impostos, de preços e de desemprego não está sendo debatido, muito menos a situação dos menos favorecidos que irão pagar essa conta.
Não queremos tirar o mérito de nossos companheiros caminhoneiros e também não somos contra greve – a qual consideramos um instrumento que pode e deve ser usado por todos os trabalhadores quando falham outros meios de negociação. Também não queremos ficar em cima do muro, olhando de longe a caravana passar.
Seria maravilhoso se todos os trabalhadores deste país aproveitassem este momento e se conscientização do poder eles têm. Seria incrível se os trabalhadores entendessem que eles são os responsáveis pela produção, são donos da maior mídia do país e que se todos paralisassem poderíamos iniciar mudanças profundas no país.
Se todos cruzassem os braços e pedissem o fim da corrupção e a troca dos representantes dos três poderes, mostraríamos o poder que emana do povo.
Bem que poderíamos aproveitar a deixa dos caminhoneiros e reivindicar mudanças profundas no país. Seria o máximo do exercício democrático.
Mas não. Assistimos como meros expectadores os acontecimentos. Saímos correndo para abastecer nossos veículos e para encher o carrinho do supermercado e como tantos outros afirmamos – é o caos!
Alguns fazem prognósticos catastróficos, de que a greve é o começo do fim do país. Tudo está errado, tudo está muito ruim, não existe solução – democracia para quê? É melhor entregar o país para os militares. Assim pensa os que acreditam no quanto pior melhor.
Esquecem que a democracia, mesmo capenga, ainda é o melhor caminho para atingirmos o amadurecimento político e econômico, para sairmos da escravidão – na democracia temos voz, temos liberdade, podemos fazer greve como a dos caminhoneiros. Já esqueceram que “paz sem voz não é paz é medo”.
Graças a Deus que, parece, que os militares não querem tomar o poder. Afinal, nove dias de paralisação e tanto desabastecimento….
No entanto, faixas e cartazes pedem intervenção militar já. Quem será que começou isso?
O Brasil já viveu crises piores e sobreviveu. Não é o fim. Ao contrário, podemos aproveitar este momento, mudar o rumo e traçar um novo destino para o país. Porém, esse novo destino não terá resultados imediatistas como querem os intervencionistas.
Os resultados virão a longo prazo e requerem valorização da educação, do trabalhador do ser humano brasileiro. Requer a conscientização do povo e a transformação da massa que hoje vive como gado, obedecendo ao toque de qualquer berrante.
Isso leva tempo e é uma missão para poucos. É para aqueles que acreditam no potencial do país, que sonham com um futuro melhor, mas que também lutam diariamente para que essa transformação se realize.
É para aqueles que não acreditam no caos, aqueles que não acreditam que chegamos ao fim e que devemos nos entregar de bandeja ao autoritarismo e a ditadura.
Não somos, apenas, todos caminhoneiros, somos todos brasileiros!
É preciso estar atento para o cenário político. A greve desviou o foco de todos os outros problemas do país e já está servindo de plataforma política para muitos candidatos. Assim que a greve terminar vem a Copa do Mundo e quando acordarmos estaremos em frente as urnas escolhendo nossos representantes.
Vamos aproveitar este momento para refletir no futuro que queremos. Nós e ninguém mais somos responsáveis pelo futuro.
Queremos o caos? Queremos ser subjugados? Ou queremos lutar por um país social democrático?
Vamos aproveitar esta paralisação para rever nossos conceitos de cidadão. Vamos acabar com a nossa participação nas corrupções diárias (net gato, cd pirata, transferência de pontos de multa, calote nas contas pessoais e nessas outras “corrupçõezinhas” definidas pela Lei de Gerson).
A mudança começa dentro de cada um de nós. Não conseguiremos mudar uma sociedade se não mudarmos o comportamento de seus cidadãos.
Aplaudimos nossos companheiros caminhoneiros pela coragem. Agora vamos fazer nossa parte. Afinal, somos todos brasileiros e estamos no mesmo barco.
Por esse motivo, vamos apoiar a decisão das Centrais sindicais de paralisar as atividades amanhã em todo o país, com o objetivo de baixar os preços da gasolina, do gás de cozinha, para apoiar a greve dos trabalhadores caminhoneiros e por eleições democráticas. A greve tem início a partir da zero hora de hoje.

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