Oferta além da demanda segura preço nos hotéis.

Por João José Oliveira | De São Paulo

O ritmo de crescimento mais intenso na oferta de quartos e uma taxa de expansão mais moderada na demanda já afetam indicadores operacionais no setor hoteleiro de algumas das principais cidades do país. Nesse cenário, o reajuste de tarifas no setor não está acompanhando a inflação, levando a hotelaria a registrar, entre julho e setembro deste ano, perda de receita por unidade em relação aos números apurados no mesmo período de 2012, segundo revela estudo da Hotel Invest.

“O ritmo da atividade econômica não está ajudando o setor, que está aumentando a oferta a uma velocidade muito maior do que a demanda pode acompanhar com esse PIB [Produto Interno Bruto] do país”, disse o sócio diretor da HotelInvest, Diogo Canteras, que desenvolve projetos de planejamento, pesquisa e gestão de empreendimentos hoteleiros.

O PIB acumulado em 12 meses até o fim de junho – dado mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – avançou 1,9% em termos reais.

Ao longo dos últimos quatro trimestres, a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou variação de 5,86%. No mesmo período, a tarifa média praticada pela hotelaria em seis das principais regiões metropolitanas do país – São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e Curitiba – subiu 3,9%.

“A variação real das tarifas acabou sendo negativa por causa da demanda abaixo da oferta”, disse Canteras. Comparando os números dos dois períodos, a taxa de ocupação nesses mercados caiu 4,2%. Com a menor demanda, a receita por unidade (RevPAR) recuou 0,4% no período, apesar do incremento de 3,9% no valor da diária média.

A retração mais forte no item ocupação ocorreu em Salvador e Porto Alegre, com variações negativas na ocupação de 11,7% e 7,6%, respectivamente. “Parece que os efeitos gerados pelo aumento de oferta [de hotéis e de quartos] já estão refletindo no desempenho operacional do setor”, afirma o sócio presidente da HotelInvest, Diogo Canteras.

Na capital baiana, por exemplo, a oferta aumentou 19,4% entre julho e setembro deste ano ante os números do mesmo período de 2012, atingindo 466,7 mil quartos. Assim, mesmo com a procura registrando avanço de 5,4%, a ocupação média recuou, derrubando a receita média por unidade em 10,2%.

Também no Rio de Janeiro, a oferta hoteleira cresceu mais que a demanda – 11,2% ante 9,3% -, o que acabou afetando a ocupação, que diminuiu 1,7%. Mas o reajuste médio da tarifa em 4,2% permitiu uma receita média por unidade 2,4% mais forte.

“Precisamos acompanhar o ritmo de entrada das novas unidades para ver quais cidades podem sofrer com um excesso de oferta após os grandes eventos”, disse Canteras, referindo-se à Copa do Mundo, em 2014, e aos Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, em 2016.

O Ministério do Turismo estima em 600 mil estrangeiros e 3 milhões de brasileiros o total de viajantes que circularão no Brasil no ano que vem, especialmente para acompanhar a Copa.

Segundo o Forum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), as 26 redes associadas à entidade estão investindo R$ 7 bilhões, desde 2012 e até 2015, para a construção de 40 mil novos apartamentos, o que vai elevar a oferta de quartos em 24,3%. Mas nessa mesma base, a demanda vai crescer 15,7%, aponta a entidade.

Os mercados que apresentam uma relação mais apertada entre oferta e demanda estão conseguindo atravessar com maior desenvoltura a atual onda de aumento de oferta associada à atividade econômica mais fraca. É o caso do Rio de Janeiro, que registrou no terceiro trimestre deste ano um aumento de 2,4% na receita por unidade de hospedagem, apesar de uma expansão de 11,2% na oferta de quartos.

Na mais recente edição do estudo Hotel Price Index (HPI), realizado pela Hoteis.com, o Rio de Janeiro aparece como o destino brasileiro preferido dos viajantes estrangeiros no primeiro semestre de 2013. Na contramão, Florianópolis caiu duas posições ficando na oitava posição do ranking das cidades brasileiras favoritas dos estrangeiros.

“Existe uma série de variáveis que podem impactar esse resultado, como por exemplo, momento político e econômico dos países. Mas conseguimos identificar algumas tendências que se mantêm, como é o caso dos cinco primeiros colocados deste ranking”, disse comenta a diretora de marketing da Hoteis.com para a América Latina, Carolina Piber. referindo-se aos mercados do Rio, de São Paulo, Foz do Iguaçu, Salvador e Brasília.

Sócio da HotelInvest, Canteras diz que existe uma tendência de recuperação do setor em 2014, com a realização da Copa do Mundo, entre junho e julho, movimentando pelo menos 12 cidades-sede do evento, além de um PIB mais robusto, esperado pelo mercado. “O setor hoteleiro tem uma relação de um para um com o PIB crescendo entre 2% e 4%. Mas se a economia andar mais que isso, essa relação aumenta, e a hotelaria pode crescer duas vezes o PIB”.

Mas não é isso que os agentes econômicos projetam. O Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com aproximadamente cem economistas e consultores do mercado financeiro, projeta para 2014 crescimento de 2,19% para o PIB – abaixo das estimativas traçadas para 2013, que apontam mediana de 2,50%.